José Pereira de Alencar
![]() |
| Imagem do Google Image |
Numa sociedade que ousa discutir e combater as mais diversas formas de violência praticada por e contra seus membros, precisamos incluir neste rol, a violência praticada pelos pais contra a vivência da afetividade dos filhos adolescentes e jovens.
Se no tempo de namoro e casamento dos nossos avôs - antes da década de 1960 -, os pais eram os responsáveis por escolherem os esposos para as filhas e as esposas para os filhos (os/as quais eram obrigados/as a aceitarem, sem direito a questionamentos ou rejeição), fomos criados/as ouvindo histórias de namoro escondido dos nossos pais e mães e de seus amigos e amigas.
Namoro escondido não por ser proibido, arriscado frente a outros interessados e perante a sociedade, mas por não ser consentido pelos pais e mães. Escondido pelo medo da repressão psicológica e fisicamente violenta que poderiam sofrer dentro de casa.
Não são poucas as histórias de tios, primos e demais parentes e conhecidos que foram obrigados a casarem com quem nunca tinha, sequer, conversado, só por imposição dos pais e mães.
Nos últimos cinquenta anos, nossa sociedade mudou significativamente e após a Promulgação da Constituição Federal de 1988, avançamos muito em diversos aspectos, dentre eles na conquista e consolidação das liberdades individuais, particularmente, no aspecto da teoria da incapacidade atribuída a todas as pessoas menores de idade.
Assim, deveríamos ter deixado de considerar os menores de idade como incapazes de pensar e agir sabendo o que querem. Deveríamos, devemos e deveremos apenas acompanhá-los com nosso olhar paterno/materno, sugerindo-lhes correções nos projetos e atitudes, partilhando experiências de vida, aconselhando-os a buscarem o melhor possível, superando a ilusão das boas aparências.
Assombrosamente, adolescentes e jovens – rapazes e moças -, ainda são proibidos de aprenderem a amar outra pessoa. No trabalho com juventudes, cotidianamente, lido com situações de violência familiar praticada por pais e mães contra filhos e filhas, particularmente, contra as mulheres, as quais são obrigadas a namorarem escondidas, porque, se os pais souberem vão bater nelas e proibi-las de sair de casa sem a presença deles ou de alguém de confiança que agirá com um cão-de-guarda ou fofoqueiro de plantão.
Assusta-me, corriqueiramente, ouvi as expressões do tipo: “se meu pai souber, me mata de uma pisa”; “painho prefere me ver morta do que casada com fulano (namorado)”; “desde que comecei a namorar com fulano, painho não me abençoa mais”; “não posso andar lá em casa, ....painho me excomungou, porque eu tive um relacionamento com fulano”.
É muito frequente ouvi dos jovens – homens e mulheres -, um medo aparentemente exagerado de tratar de assuntos amorosos com os pais. Os rapazes geralmente são mais livres para namorarem sem precisar dar tanta satisfação aos pais, no entanto, não contam com eles como amigos, para partilharem experiências de vida e iluminar situações de indecisões ou conflitos pessoais. Aprendem sozinhos ou com os amigos. Mas não estão ilesos da interferência da família quando decidem se casarem. Os pais e mães são os primeiros a transformarem a namorada do filho numa deusa ou demônio, paparicando demais ou infernizando o relacionamento.
Muitas moças, ainda preferem namorar escondido e fugir de casa, ajuntar-se do que encararam os contragostos dos pais e mães. É muito frequente encontrarmos mulheres tristes porque os pais não vão ao seu casamento, em virtude de não gostarem do seu namorado; excomungadas pelos pais, porque tiveram um relacionamento e engravidaram; e indecisas quanto ao futuro, tamanha é a repressão dentro de casa.
Também é comum encontrarmos casos de pais e mães que não deixam os filhos e filhas frequentarem a escola, grupos de jovens e demais espaços de aprendizado e sociabilização, por considerarem lugares onde tudo pode acontecer sem estar ao alcance dos seus olhos.
Esses pais e mães se acham deuses, eternos, parecem que acham que nunca irão morrer. Negam que os filhos e filhas terão que continuar vivendo e trilhando caminhos com as próprias pernas sem a tutela deles.
Entristece-me que muitos pais e mães, nos parecem verdadeiros santos e santas quando conversam com a gente, frequentam nossas casas e igrejas, mas que dentro de casa são verdadeiros monstros para os filhos.
No momento, acompanho uns dez casos complicados de jovens muito bons atuantes, educados/as, estudiosos/as, trabalhadores/as, mas que vivem o drama da violência familiar em matéria de liberdade afetiva. Isto sem contar no leque, dos/as que agora trilham caminhos fora de casa, fugindo da fúria dos pais.
Por quanto tempo essa herança maldita ainda vai pairar sobre nossas vidas? Quantas vidas ainda serão violentadas para darmos um basta nesta imbecilidade? Quantos futuros serão interrompidos para nos darmos conta da besteira que estamos fazendo? Quantos/as jovens terão que abandonar ou serem expulsos de suas famílias pela ignorância afetiva dos seus pais e mães? Por quanto tempo, ainda vamos tolerar que isso aconteça sem nos intrometermos em assuntos domésticos?
Quantas jovens mães solteiras terão que abortar seus filhos porque eles não são desejados por seus pais e estes não aceitam os seus namorados como pais dessas crianças?
Quantas mulheres serão expulsas de suas casas para viverem relegadas à própria sorte só porque ousaram se relacionarem com alguém que os pais e mães não “vão com a cara”?
Não seria mais cômodo os pais e mães terem calma e educação e conversarem com os filhos e filhas, apenas, indicando o perfil ideal para se escolher com quem deveriam namorar?
Eu torço para que nossos/as adolescentes e jovens saibam escolher pessoas que sejam estudiosas, honestas, trabalhadoras, éticas, responsáveis, com bons valores morais, sem olhar para aparências estéticas, pois com o tempo elas mudam e desaparecem. Também sem olhar para os bens materiais, pois a ferrugem come, o ladrão rouba e a traça corroe e não se vive por amor, mas por interesse.
Torço ainda pela divina rebeldia da juventude, que nunca se curva aos padrões de uma sociedade adultocêntrica imoral que cobra da juventude o que ela não tem para oferecer aos/às jovens.
_________________________________________
José Pereira de Alencar é Assessor do Setor Juventude – Diocese de Salgueiro. Formação de Conselheiro em Direitos Humanos pela Ágere Cooperação em Advocacy.




